O dicionário vazio
Muito do que você diz que esqueceu nunca foi guardado, ou foi e você não acha o caminho. Como pôr no baú de ouro e saber tirar de lá.
Você e eu, por muito tempo, quase nunca esquecemos, pois quase nunca guardamos. Éramos o homem (ou a mulher) do dicionário vazio.
Como podemos dizer que esquecemos algo, sendo que aquilo jamais foi pra onde deveria ir? E mesmo assim dizemos:
Sou ruim de nomes. Sou ruim pra lembrar disso. É difícil estudar, não lembro.
E eu respondo: claro... Claro! Na maioria das vezes, aquela informação nunca chegou à memória de longo prazo. Tudo era jorrado pra fora em minutos, era apagado.
É como alguém que recebeu um dicionário completamente vazio. Ele sabia que ali deveriam estar as palavras, então começou a escrever as que via, com o significado. Num mês, colocou centenas. Mas, mês após mês, voltando às primeiras páginas, percebia que de algumas já nem sabia o significado. Ele via palavras novas, escrevia, mas não guardava.
E tem a outra vez, a que engana: a palavra tá lá, mas você não acha a página. É o nome na ponta da língua, que volta quando alguém diz a primeira letra. Então são dois problemas: ou nunca guardou, ou guardou e não tem caminho até ela. Os pilares de baixo são pra esses dois.
O dicionário vazio, porém premium
Quando ainda não era nem mancebo (muito jovem), eu jurava que estudava certo. Não era um gênio; porém, muita facilidade pra tirar notas altas, ou pouco acima da média, eu tinha. Mal estudava: eu simplesmente me preparava pra prova, e muitas vezes dava certo. Mas eu não tava guardando. Eu só estava no dicionário vazio, porém premium, onde você é "nomeado" inteligente, bom, singular naquilo, enquanto, na verdade, você só aprendeu a passar na prova, e não a guardar.
Uma semana depois eu esquecia tudo, às vezes até antes, pois não tinha amor por aquilo, não via utilidade, achava enfadonho e plenamente banal. Até me encontrar num dilema:
Se eu não lembrar daquilo em que me esforcei, mesmo em pouco tempo (e era um esforço triplo, porque só estudava perto da prova), e sair com um diploma, a escola valeu de quê?
Eu não tenho muitos amigos, mas ajudo a outrem independente da relação. E se eu sair da escola e a única coisa que me restar for um emprego medíocre e uma vida medíocre, o oposto do que todos esperam de mim? Assim pensava.
Mas nem eu sei o que esperar de mim. Nem ambição, nem verdadeiramente sonho tenho. O que realmente quero? Prazer? E quando adulto for?
Se eu continuar não lembrando das coisas, do que minha vida valerá? E se eu lembrar? O quanto sofrerei? O quanto terei que me esforçar? Mas, no final, terei realmente descoberto quem quero ser e o que quero fazer?
O estudo faz isso: vai mostrando, aos poucos, quem a gente quer ser. Hoje ainda é complicado, mas muito mais fácil do que uns anos atrás, e assim vai indo, independentemente de quem você é. Nós, humanos, somos das espécies que mais se adaptam, e, até onde se sabe, a que mais pensa sobre si mesma e sobre as próprias ações. Devemos aproveitar isso pra viver uma vida exímia, pois teremos só uma. Hoje sei quem sou eu e quem quero tornar-me, e você?
Ok, tudo bem. Então como eu faço pra guardar num baú de ouro, saber tirar de lá, e não ser alguém que só vislumbra e não deslumbra nem relembra?
Já dizendo: o que vou falar é algo que você já escutou, mas vou te dizer de um jeito que se aplique rápido e não complique com as dificuldades de cada um.
1. Associação
Sim, associação. Por quê? Porque duas mãos são mais fortes que uma, um coral é mais potente que uma voz sozinha, e uma luta que se guarda na memória não é de um homem, mas sim de dois.
Digamos que queremos lembrar de um nome. Associe esse nome a algo que você já conhece.
Exemplo: temos seu colega novo, Mathias Cunha, e seu ídolo, o jogador de futebol Matheus Cunha. O que se faz? Em sua mente, imagine o rosto do seu colega dizendo o nome do jogador. Se não conseguir imaginar com nitidez, narre esse momento: repita mentalmente que seu colega Mathias Cunha tem o nome do seu jogador Matheus Cunha, só muda uma letra. Assim o colega fica preso a quem você já conhece, e esquecê-lo fica bem mais difícil. E, no dia em que o nome do colega sumir, o do jogador puxa ele de volta.
2. Deixe o cérebro trabalhar
Pela misericórdia, muitos estudam errado e nem sabem. Eu era um deles. Leem, releem, e quando o texto parece conhecido acham que sabem. Parece conhecido porque acabou de ler, e isso engana.
Então, em vez de reler, primeiro tente lembrar sem olhar:
- Escreva o que lembra, de cabeça.
- Olhe o material novamente, vendo o que esqueceu.
- Leia em voz alta o que errou, se imaginando no cenário, do mais complexo matemático ao mais nojento biológico.
- Quando tiver uma alta taxa de acerto, releia menos e teste mais: revise em cartões, ou escreva novamente depois de um tempo.
E por que esperar? Porque o cérebro enfrenta muitas coisas, e é o tempo que mostra se foi guardado. Lembrar cinco minutos depois é fácil. Lembrar três dias depois já mostra muito mais se foi pro baú ou se ficou no dicionário vazio.
Quanto esperar entre uma revisão e outra não tem fórmula. Depende de quanto tempo você quer guardar aquilo. Um exemplo pra começar: pra prova da semana que vem, revise de um a dois dias depois; pra levar pra vida, vá afastando, dias, depois semanas, depois meses, e ajuste conforme você acerta ou erra. Pra muita gente, uma boa hora é à noite, antes de dormir, com uma tentativa de cabeça ao acordar. E, logo depois de estudar, se der, fique uns minutos sem enfiar outra coisa pesada na cabeça.
Os cartões e os intervalos estão no capítulo do Anki.
3. Utilidade é mais importante do que você pensa
Tente dar uma utilidade pra aquilo que parece servir a um objetivo só. Se é pra um simples objetivo, que logo passa, mais tênue é a linha da memória, e mais fácil o medo e as emoções cortarem.
Mas a utilidade não segura nada sozinha. O que segura é o que ela te obriga a fazer: pensar no que aquilo significa e ligar ao que você já sabe. Quem só repete o nome do elemento guarda menos do que quem pensa pra que ele serve.
Tente, só tente. Exemplo: ao decorar a tabela periódica, dê um sentido a ela. Os elementos químicos que mantêm você vivo e ajudam na sua vida. Os que se usam na tecnologia todos os dias e você não vê. E por que isso é útil? Não darei a resposta, quando é só você pensar.
Voltando: elementos químicos tóxicos, outros que podem salvar sua vida. Crê que esse saber é inútil?
Ah, mas eu nunca vou precisar saber de elementos para cuidar da saúde. Ah, por que saber de elementos que estão na tecnologia? Ah, nunca vou correr risco com elementos tóxicos.
Ok, continue crendo no nunca, e que o universo não é o caos. Você não sabe hoje o que vai precisar amanhã. Se continuar acreditando só nos contra-argumentos e não aceitando os prós, nunca verdadeiramente encontrará utilidade nas coisas.
Você acha que um médico não estuda das doenças mais comuns às mais raras? Que um mecânico não estuda do problema mais simples ao mais complexo? Eles estudam o raro porque não escolhem o que vai entrar pela porta. A raridade não é um valor nulo, mas sim útil em circunstâncias não esperadas, que podem bater na porta a qualquer instante.
4. Dormir
Não se dorme menos de 7 horas, se você é adulto; de 13 a 18 anos, o pedido é de 8 a 10. É dormindo que boa parte do que você estudou de dia se firma. Então quem estuda muito e dorme pouco está enchendo o baú com o fundo aberto.
E noite mal dormida não se paga fácil. Num estudo, quem dormiu pouco por uma semana não voltou ao normal nem depois de três noites boas. Ali se mediu atenção e rendimento, não memória; mas, com a atenção ruim, aprender e guardar fica bem mais difícil.
Muitas outras técnicas estão no capítulo de Ultramemória e no de ultra-aprendizagem; olhe lá. Aqui estou dando os pilares base, úteis pra ter noção.
Os três de baixo não guardam nada sozinhos. Servem pra você não largar os quatro de cima.
5. A limitação humana foi criada pelo próprio humano
Sempre que alguém disser que aquilo é impossível, ou que não tem como fazer assim, lembre-se: o limite humano já foi quebrado muitas vezes, e na memória também. Nos anos 70, um estudante comum guardava uns 7 números de cabeça, como quase todo mundo. Depois de quase dois anos, umas 230 horas de treino, guardava 79. E não foi repetindo: ele era corredor e ligava os números a tempos de corrida que já conhecia. Associação, o pilar 1.
Nota: Existem técnicas que podem nos dar resultados grandes em muito menos tempo, mas exigem mais esforço, exemplo: o sistema major que está no manual também.
Por isso, antes de tudo, acredite que você pode. Não porque acreditar guarde alguma coisa, mas porque quem vive dizendo que é ruim e não consegue já antecipa a frustração e a dor, e, no momento em que fica difícil, desiste. Mas não! Lembre-se de que todo ato bom, toda limitação quebrada, foi primeiro desbancada mentalmente. O maior inimigo, na maioria das vezes, não é outrem, mas sim nós mesmos: nossa desculpa, nosso medo e nossa acrasia (veja neste post: A falsa ambição do homem).
Em suma, o muro do impedimento começa a cair quando você pensa que pode quebrar e se imagina quebrando pedaço por pedaço, até a queda. Mas só cai de verdade com a marreta na mão, que são os quatro de cima.
6. Alguém já passou pelo seu problema
Lembre-se de que cada problema que você passa hoje alguém possivelmente já passou. E, em vez de ser pego pela terceirização racional, que é deixar que outro pense por você e engolir a resposta pronta, pesquise como resolver, estude, ou olhe o manual. No manual Colossus estão os passos pra solucionar seus problemas, entretanto ninguém pode dar esses passos por você.
7. Faça antes do seu tempo acabar
Faça antes do seu tempo acabar e, quando acabar, não tenha motivos pra se lamentar: por não ter feito, por não ter lembrado, por não ter se esforçado pra ser melhor do que você foi um dia antes, um mês antes. Melhor que você, e não melhor que um adversário, porque o único dicionário que você pode encher é o seu.
O teste de hoje
Pegue cinco nomes ou palavras que você estudou esta semana e jura que sabe. Feche tudo e escreva de cabeça o significado de cada uma.
- As que não saírem, dê uma pista: a primeira letra, onde você viu, com o que ela parecia.
- Voltou com a pista? Tava guardada, só faltava o caminho até ela.
- Não voltou nem assim? Pode estar lá sem caminho, ou pode nunca ter entrado. Pra você, hoje, dá no mesmo: trate como se estivesse no dicionário vazio.
- Pegue essas e prenda cada uma a algo que você já conhece, como o Mathias ao Matheus.
- Amanhã, logo após acordar, teste de novo, sem olhar, e anote quantas voltaram sozinhas. Repita daqui a três dias e daqui a uma semana. Se o número sobe, o baú tá enchendo.
Viver por si mesmo é pegar aquele dicionário vazio, que só tinha palavra vista e esquecida, e enchê-lo, página por página, de palavra guardada, até ele virar escrita sagrada para seu ser, completo, como deveria ser.
Fontes · 13
- Tulving, E.; Pearlstone, Z. (1966). Availability versus accessibility of information in memory for words. Journal of Verbal Learning and Verbal Behavior, 5(4) (guardar e achar são coisas diferentes; com a pista certa, volta o que parecia esquecido)
- Roediger, H. L.; Karpicke, J. D. (2006). Test-enhanced learning. Psychological Science, 17(3) (lembrar de cabeça guarda mais que reler; reler dá a sensação de saber)
- Cepeda, N. J. et al. (2008). Spacing effects in learning: a temporal ridgeline of optimal retention. Psychological Science, 19(11) (o melhor intervalo depende de quanto tempo se quer guardar, e não cresce em linha reta)
- MacLeod, C. M. et al. (2010). The production effect. Journal of Experimental Psychology: Learning, Memory, and Cognition, 36(3) (o que se lê em voz alta é lembrado melhor que o lido calado, na mesma lista)
- Dewar, M. et al. (2012). Brief wakeful resting boosts new memories over the long term. Psychological Science, 23(9) (uns 10 minutos de descanso acordado depois de ouvir histórias)
- Mazza, S. et al. (2016). Relearn faster and retain longer. Psychological Science, 27(10) (pares de palavras de língua estrangeira: estudar à noite e revisar de manhã, com o sono no meio, rendeu mais que as duas sessões no mesmo dia; não diz que esse horário é o melhor pra todos)
- Craik, F. I. M.; Tulving, E. (1975). Depth of processing and the retention of words in episodic memory. Journal of Experimental Psychology: General, 104(3) (pensar no significado guarda mais que repetir a forma)
- Ericsson, K. A.; Chase, W. G.; Faloon, S. (1980). Acquisition of a memory skill. Science, 208(4448) (um universitário de memória comum, de uns 7 para 79 dígitos em cerca de 20 meses e 230 horas, ligando os números a tempos de corrida)
- Rasch, B.; Born, J. (2013). About sleep's role in memory. Physiological Reviews, 93(2) (o sono firma a memória)
- Paruthi, S. et al. (2016). Recommended amount of sleep for pediatric populations. Journal of Clinical Sleep Medicine, 12(6) (8 a 10 horas de 13 a 18 anos)
- Watson, N. F. et al. (2015). Recommended amount of sleep for a healthy adult. Sleep, 38(6) (adulto, 7 horas ou mais)
- Belenky, G. et al. (2003). Patterns of performance degradation and restoration during sleep restriction and subsequent recovery. Journal of Sleep Research, 12(1) (sete dias de sono curto e três de recuperação; mediu atenção e rendimento)
- Kevin hernandez,capa