O gato de perna dourada e o sapo de chinelo
Reler é rápido e dá confiança. Se testar é lento e atrapalha no começo. Uma semana depois, quem chega mais longe é o sapo.
Vamos começar por um artigo de 2006 que eu li (link). Ele fez dois experimentos, um com 120 universitários e outro com 180. Pra não contar o artigo todo, deixo o link e vou direto ao ponto.
Os resultados parecem contraditórios à primeira vista, e o que decide é quando vem a prova. Esse artigo, e várias outras pesquisas depois dele, já mostram que a releitura não é o santo graal do estudo. Ela serve, mas pra guardar na RAM, e não no SSD: para o que você vai usar daqui a pouco, e não para o que precisa durar. Se o seu objetivo é longo, ela não basta.
Quando eu era o gato
Como já disse no Dicionário vazio, eu estudava pras provas. Relia sempre antes da prova, estudava só quando faltava pouco tempo e tentava dar uma de JK, o presidente dos "50 anos em 5": aprender o máximo do conteúdo da prova em pouco tempo, com concentração. E maioria das vezes funcionava bem.
Porém, com o passar das semanas, eu nem sabia o que tinha estudado. Na hora da revisão da professora e dos exercícios mistos, pegava-me tendo que reler e estudar de novo, feito leigo, aquilo que, aos olhos de outrem, eu sabia feito mago. Mas, na realidade, eu sofria tanto quanto qualquer um.
Isso mudou quando eu realmente comecei a estudar como se deve estudar: pra lembrar, pra fazer aquele estudo parte de mim e largar, mesmo que um pouco, a ignorância.
O que o artigo mostrou
Os alunos liam textos curtos de ciência, um sobre o Sol e outro sobre lontras-marinhas. Uns releram. Outros leram uma vez e depois se testaram: escreveram tudo o que lembravam, sem ninguém corrigir e sem ver a resposta certa. A prova final vinha 5 minutos depois, 2 dias depois ou 1 semana depois.
Na prova de 5 minutos, quem usava mais a releitura e menos o teste tirou nota maior do que quem testava mais. Mas, na prova de uma semana, quem testava mais saiu na frente. No segundo experimento, quem leu o texto quatro vezes lembrou 40% dele uma semana depois; quem leu uma vez e se testou três, 61%.
E tem um detalhe que pra mim é o mais importante: quem só releu achava que ia lembrar mais. Estava confiante, e errou.
Não é só um estudo
Bom, um estudo sozinho não prova muita coisa. Só que esse não está sozinho. Em 2013, um artigo de 55 páginas avaliou dez técnicas de estudo que os alunos mais usam: reler ficou entre as de baixa utilidade, e se testar e espaçar as revisões ficaram no topo. Depois disso, revisões que juntaram dezenas de estudos (2014 e 2017) acharam o mesmo, e em sala de aula de verdade também (2021).
E se testar não é só decorar. Em 2011, alunos que praticaram lembrar de cabeça foram melhor, uma semana depois, do que alunos que fizeram mapa conceitual do mesmo texto, até nas perguntas que pediam raciocinar.
Estudar e testar, alternando
Pois a melhor forma seria o estudo alternado com teste. Mas, em vez de testar sempre da mesma forma, lendo o mesmo conteúdo, leia de outra fonte sobre aquele tema e procure exercícios distintos sobre o mesmo tema. Assim você usa aquela fonte anterior pra criar uma ponte entre dois conteúdos, e os exercícios distintos fazem você não só decorar aquele tema, mas entender a lógica por trás de cada pergunta.
Essa parte é mais minha do que dos estudos: tem pesquisa a favor de variar e de explicar pra si mesmo, mas bem menos do que a do teste.
O gato de perna dourada
A releitura é como o gato de perna dourada. A perna é chamativa, e o gato se sente confiante. Mas, diferente de outros gatos, ele não aguenta longos percursos, então tem que parar com frequência, e, nessas paradas, vai queimando, sem perceber, a gordura que tinha guardado. Como a releitura: rápida, chamativa, mas não pra longos percursos. Com o passar do tempo, ela vai jorrando conteúdo pra fora, de pouco a muito.
E a confiança do gato é a mesma dos alunos que só releram.
O sapo de chinelo
E agora temos o sapo de chinelo. O chinelo atrapalha ele no início: demora mais pra conseguir dar os primeiros pulos. Mas, diferente do gato de perna dourada, depois de um tempo ele consegue pular por muito mais tempo, queimando menos gordura.
Esse chinelo é o teste: travar, errar, não lembrar. Atrapalha no começo, e é justamente esse esforço que faz guardar.
Bem, sei que o manual tem muito sobre leitura, mas é sempre bom enfatizar e mostrar de um ângulo diferente.
O teste de hoje: o gato contra o sapo
Deixo um exercício pra ti. Escolhe um tema pra estudar.
A rodada do gato. Faça leitura e releitura, sem teste, por um tempo. No dia seguinte, sem olhar, escreva tudo de que se lembra e veja quantas lacunas ficaram.
A rodada do sapo. Agora escolha um conteúdo semelhante, sem dificuldade maior nem menor, e estude de novo, porém de um jeito diferente:
- Leia aquele conteúdo, ou assista.
- Faça uma pausa de uns 5 minutos, sem olhar pra tela nem pra ninguém. Faça nada, nadinha.
- Após a pausa, escreva tudo de que se lembra, de um jeito fácil de entender, explicando.
- Abra o material, compare e marque seus erros. Fale em voz alta a correção de cada um.
- Uns 10 minutos depois, leia de outra fonte sobre o mesmo tema. Veja as diferenças, compare, procure erros, se tiver, e pesquise. Uma ou duas leituras bastam: aqui o que conta é comparar, e não reler.
- Procure em sites exercícios sobre aquele conteúdo, no nível em que você está. Use também os que já tiver, junto com aquelas duas fontes, e faça todos.
- Depois de tudo isso, não faça mais nada com o conteúdo. Faça o que quiser, pois agora depende da memória.
- Antes de dormir, se puder, tente lembrar primeiro, de cabeça, e só depois leia de novo o que faltou.
- Durma. A boa noite de sono é muito importante, porque é nela que boa parte do que você estudou se firma e vai pro baú de ouro (falei disso em O dicionário vazio).
- Ao acordar, teste-se: escreva tudo de que se lembra, sem olhar, e compare com a rodada do gato.
Pra comparação ser justa, faça as duas provas com o mesmo intervalo. E, se quiser ver a diferença de verdade, escreva de novo as duas daqui a uma semana, sem estudar nada no meio. É aí que o sapo costuma passar o gato.
Claro que ler e reler serve pro curto prazo: se você se testar logo depois, a releitura ganha. E a primeira leitura, pra entender, ninguém pula. Mas, se você usar a releitura pro longo prazo, o conteúdo só irá caindo.
Então, concluo que vai da sua escolha, e isso é ambivalente: você não será mais nem menos por optar esquecer. Mas um dia, quiçá, pode se arrepender ou se sentir inferior, ou não.
Fontes · 11
- Roediger, H. L.; Karpicke, J. D. (2006). Test-enhanced learning. Psychological Science, 17(3), 249-255 (120 e 180 universitários; reler ganha em 5 minutos, se testar ganha em 2 dias e 1 semana; quem releu se achava mais preparado)
- Dunlosky, J. et al. (2013). Improving students' learning with effective learning techniques. Psychological Science in the Public Interest, 14(1), 4-58 (dez técnicas; reler de baixa utilidade; testar e espaçar de alta)
- Rowland, C. A. (2014). The effect of testing versus restudy on retention. Psychological Bulletin, 140(6) (meta-análise do efeito de teste)
- Adesope, O. O.; Trevisan, D. A.; Sundararajan, N. (2017). Rethinking the use of tests. Review of Educational Research, 87(3), 659-701 (meta-análise do efeito de teste)
- Yang, C. et al. (2021). Testing (quizzing) boosts classroom learning. Psychological Bulletin, 147(4) (o efeito de teste em sala de aula)
- Karpicke, J. D.; Blunt, J. R. (2011). Retrieval practice produces more learning than elaborative studying with concept mapping. Science, 331(6018) (lembrar de cabeça contra mapa conceitual)
- Cepeda, N. J. et al. (2006). Distributed practice in verbal recall tasks. Psychological Bulletin, 132(3) (espaçar as revisões)
- Donoghue, G. M.; Hattie, J. A. C. (2021). A meta-analysis of ten learning techniques. Frontiers in Education, 6 (as dez técnicas de 2013, medidas de novo)
- Bjork, R. A. (1994). Memory and metamemory considerations in the training of human beings. Em Metcalfe e Shimamura (orgs.), Metacognition (o esforço que atrapalha no começo e faz guardar)
- Dewar, M. et al. (2012). Brief wakeful resting boosts new memories over the long term. Psychological Science, 23(9) (a pausa sem fazer nada depois de aprender)
- Rasch, B.; Born, J. (2013). About sleep's role in memory. Physiological Reviews, 93(2) (o sono firma a memória)