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Colossus Brain IIIblog

A falsa ambição do homem

Querer o resultado é fácil. Querer o caminho até ele é outra história.

Todo mundo quer alguma coisa grande. Porém, a gente já nasce querendo: comida, água, sono, conforto e amor. Isso é instinto, vale pra qualquer ser vivo, ou quase... Tem pessoas que nasceram com muito pouco e outras que nasceram com tudo, mas o querer básico é o mesmo.

Daí nós crescemos, e o querer cresce junto: fica maior, colossal e visivelmente mais difícil. E é nesse ponto que aparece a acrasia (do grego akrasía), algo que todo mundo já viveu: saber o que seria melhor e fazer o contrário mesmo assim. Sócrates, nos diálogos de Platão, achava isso impossível: ninguém faz o pior sabendo, e quem erra, no fundo, não sabia de verdade. Aristóteles não engoliu isso. Pra ele, dá pra saber, dá pra compreender, exigir-se e, na hora, o desejo do momento vencer, como quem sabe a matéria inteira e trava na prova. E é isso que acontece quando alguém diz:

Quero ficar rico. Quero sair da pobreza.

Querer o prêmio sem pagar o preço

Apesar disso, não deseja verdadeiramente sacrificar o tempo, não quer sofrer se esforçando ao máximo por aquilo que, lá no fundo, sabe que é o melhor. Inventa desculpa e fica com o que é mais confortável e mundano, porque o conforto já vem instalado em nós: querer o mais rápido, o mais fácil, o de menos trabalho é nitidamente pró nossa natureza. Ainda assim, para concluir com êxito um objetivo que valha a pena, a maior parte do caminho é desconfortável, e isso é radicalmente difícil até mesmo pra quem é acostumado.

Pensa comigo: se alguém só quer o resultado e foge de todo o caminho, será que quer mesmo? Irracionalmente, quer o prêmio, mas não quer pagar o preço, nenhum níquel. É isso que eu chamo de falsa ambição: querer o fim sem querer os meios, desejar ser campeão sem desejar treinar ferozmente, sem pensar nos riscos da pista, sem levar em consideração o vento e a chuva, e continuar mesmo com medo.

O sofá e o chicote que virou conforto

E o sofá só piora. Quem se acomoda nele costuma achar cada vez mais difícil levantar. E, mesmo depois de levantar, ficar de pé dói. Quem já tá fora do sofá há tempos ainda sofre, porque aprender, esforçar a cabeça, é como treinar o corpo: com a prática você melhora e cria resistência, mas a labuta não some. Um dia você vira mago daquilo, e quem ficou no sofá acha que foi passe de mágica.

O mundo de hoje também não ajuda. Nunca foi tão fácil ficar no conforto, e uma indústria inteira de distração e consumo lucra com isso. Não precisa de conspiração: o dinheiro já está em nos manter distraídos. O efeito é um povo distraído de suas ambições, distraído rumo a um futuro medíocre ou aquém disso, dependente, com a cabeça cheia do que nunca escolheu, vivendo nas nuvens feito gado açoitado invisivelmente.

La Boétie já falava disso no século XVI, no Discurso da servidão voluntária: o tirano só se sustenta porque o povo se acostuma e consente. Só que hoje o chicote virou conforto, e consentir ficou mais fácil; não só fácil, mas a melhor opção para quem não quer viver verdadeiramente, estando com sua verdadeira essência. Fica mais fácil não se conhecer, não se tornar quem se é, e viver com reflexos de indivíduos que perceptivelmente não deveriam ser seguidos.

Por isso, eu creio que quase ninguém desenvolve a verdadeira força de vontade, aquela de abrir mão de boa parte do conforto e encarar a dor do momento por um objetivo de vida, indo até o fim, tentando. Falta a vontade… falta o brio (tem mais sobre isso no cap. 16 do manual).

Então, como?

"Como ter a força de vontade que me leve até o que eu quero, me ajude a me conhecer, a me tornar quem escolho ser, a escolher quais espelhos tomar e a não deixar os outros me moldarem como massa na mesa?"

Começa com uma pergunta simples: eu realmente quero isso? Tô disposto a me esforçar, a criar meu brio na marra? A largar, nem que seja por um tempo, o hedonismo do imediato? Até Epicuro, que a gente lê como o filósofo do sofá, escreveu pra Meneceu que nem todo prazer deve ser escolhido e que certas dores valem a pena quando levam a um prazer maior.

Mas, antes dessa pergunta, tem outra: esse objetivo é meu? Disciplina qualquer um tem por uma meta que enfiaram na cabeça dele. De nada adianta pagar o preço pra virar o reflexo de alguém que eu nunca escolhi imitar.

E sim, o ambiente pesa: cansaço, grana curta, falta de chance. Já falei disso no post sobre procrastinação. Mas limite não é sentença. Trabalhar pra uma empresa, levar uma vida simples, ficar perto de casa: tudo isso pode ser uma escolha ótima. O problema é quando ninguém escolheu. Se você não se mover, corre o risco de não chegar ao seu melhor nem à vida que quer, e de virar espelho mal formado de ideia dos outros, sem saber por quê nem como, só sabendo que é assim e ponto. Se a correnteza te leva aonde você quer, ok, segue nela. Se não leva, rema num barco feito de labuta e determinação, construído por você.

Outrem pode nos empurrar, moldar até o que a gente deseja. Mas dá pra examinar aquilo que a gente aprendeu a desejar, e é aí que a escolha mora. Sartre dizia que a gente não nasce pronto, que a existência vem antes da essência e que a gente responde pelo que faz de si, até quando finge que não tinha escolha.

A dor que vale e a dor que não vale

O homem corre da dor porque não aprendeu a sofrer, ou sofreu demais e acha aquilo patético e inútil. Eu digo veementemente: não precisa ser assim. Mas cuidado, porque sofrer não é sinônimo de progresso. Tem dor que não leva a lugar nenhum, e essa não merece medalha.

A dor que vale é a do caminho que você escolheu: o desconforto de estudar quando cansado, de treinar quando o corpo pede sofá, de recomeçar depois do erro. Essa, psicológica ou física, é treino, e treinar a resistência a ela ajuda com tudo. Não tô falando de extremo. Tô falando de aguentar um pouco mais de desconforto por algo que é seu, e é essa resistência que vai eliminando a contenda interior e posterior: a briga de todo dia entre o que você quer e o que você faz.

O teste de hoje

Faz um teste hoje: escreve três coisas que você quer e, do lado de cada uma, de onde veio esse querer. Se a resposta for "vi alguém tendo", a análise deve ser minuciosa.

Seja ambicioso, mas tenha a verdadeira ambição: a que você escolheu de verdade, e não a que aceitou sem pensar.

Fontes · 5
  1. Aristóteles, Ética a Nicômaco, livro VII (a acrasia)
  2. Platão, Protágoras (Sócrates: ninguém erra sabendo)
  3. Étienne de La Boétie, Discurso da servidão voluntária (século XVI)
  4. Epicuro, Carta a Meneceu
  5. Jean-Paul Sartre, O existencialismo é um humanismo (1946)

Escrito por

Samael M.V.Lëvandier

Escrevo o manual e o blog sozinho, e cada técnica que entra passa antes pela pergunta: o que a pesquisa diz sobre ela, e quanto.