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Capítulo 07

AnkiDroid: o manual definitivo

O AnkiDroid (gratuito no Android, sincroniza com o Anki do PC e o AnkiWeb) é onde a repetição espaçada vira rotina de bolso. Mas o app é só o motor: a qualidade dos cards e o ritual de uso decidem tudo. Esta seção é o manual completo, da configuração ao que fazer antes e depois de cada revisão.

Comece por aqui• Hoje: instale, crie 10 cards atômicos seus e revise amanhã.• Erro a evitar: baixar baralho gigante de terceiros.• Sinal de progresso: a fila diária cabe em 15 min com ~85% de acerto meta.

7.1 · Configuração perfeitaFaça uma vez, colha por anos

Estes ajustes se fazem uma vez só, na primeira semana. Bem feitos, deixam o Anki trabalhando a seu favor por anos.

  1. Conta AnkiWeb + sincronização ativada: seus cards ficam na nuvem e espelhados no PC. Sincronize ao abrir e ao fechar: perder um baralho de 2 anos é trauma evitável.
  2. Ative o FSRS (Configurações do baralho → opções/preset → ativar FSRS): é o algoritmo moderno, que aprende COMO você esquece. Retenção desejada: 0,90 (suba para 0,92–0,95 só perto de prova; cada ponto a mais custa muito mais revisões).
  3. Novos cards/dia: comece com 10–20. A conta invisível: cada card novo gera ~6–8 revisões futuras. 20 novos/dia ≈ 100–150 revisões diárias em regime. Sustentável; 60 novos/dia é a receita clássica da desistência. Limite de revisões/dia: deixe alto (9999), porque revisão adiada é dívida com juros.
  4. Recursos do AnkiDroid que mudam o jogo: widget na tela inicial (o número de pendentes encarando você é o gatilho de hábito mais barato que existe); TTS (síntese de voz) lendo o card no idioma-alvo; gestos de deslizar para responder mais rápido; modo noturno; oclusão de imagem nativa nas versões recentes (tampar partes de mapas e diagramas); baralhos filtrados/estudo personalizado para véspera de prova.

7.2 · O card perfeitoAs regras de ouro (destilado das 20 regras de Wozniak)

Um card bom se responde em segundos durante anos, e um card ruim vira sanguessuga. Estas são as regras para escrever os bons, tiradas das 20 regras de Piotr Wozniak, o criador do SuperMemo.

  1. Entenda antes de cardear. Card de coisa não compreendida é entulho com agendamento.
  2. Informação mínima: 1 fato por card, pergunta com UMA resposta curta. "Cite as 5 causas da Revolução Francesa" é um péssimo card; são 5 cards (ou 1 palácio, seção 2.1).
  3. Cloze (lacuna) é seu melhor formato: "A capital da Austrália é {{c1::Camberra}}, não Sydney." Rápido de criar, rápido de revisar, mantém o contexto.
  4. Listas e enumerações não viram card cru: quebram em vários clozes ou ganham um mnemônico (história/palácio) e o card pergunta o mnemônico.
  5. Contexto e personalização: sua frase, seu exemplo, sua piada interna, uma imagem. Card impessoal desbota; card seu gruda.
  6. Dois sentidos quando importa: reconhecer (idioma→PT) e produzir (PT→idioma) são habilidades diferentes. Crie o card reverso só para o que você precisa produzir.
🃏 Sinta na prática: um card que vira

Antes de virar, responda em voz alta (a regra de ouro da recordação ativa). Só então toque para conferir. É exatamente o gesto que você repetirá milhares de vezes no Anki.

FrenteQual é a capital da Austrália?
VersoCamberra, não Sydney (a pegadinha clássica)
toque no card para virar ↺

Antes → depois, na prática: card ruim: "Fotossíntese: explique tudo" (verso: um parágrafo). Vira 4 cards bons: "Qual organela faz a fotossíntese?"; "Fotossíntese: o que entra? (3 itens)"; "O que sai?"; "Fase clara acontece onde?". Uma pergunta, uma resposta curta, com suas palavras: cards atômicos são respondidos em 5 segundos por anos; o card-parágrafo é adiado até você desistir do baralho.

A primeira regra, a de fazer os próprios cards, ganhou um teste direto em 2023. Steven Pan e colegas, da Universidade Nacional de Singapura e da Universidade da Califórnia em Los Angeles, fizeram seis experimentos com 284 universitários. Todos leram os mesmos textos e estudaram com cards digitais pelo mesmo tempo; metade usou um baralho pronto, feito pelos pesquisadores, e metade fez o seu. Dias depois, quem fez os próprios cards foi melhor nas perguntas de definição e também, com vantagem menor, nas de aplicação. E quase ninguém percebeu a diferença enquanto estudava: o baralho pronto parecia render igual.

O ganho vem de decidir. Escolher o que vira pergunta, cortar o resto e escrever com as próprias palavras já é estudo. Por isso copiar a frase do livro para dentro do card rende pouco mais que usar o baralho pronto: o trabalho que ensina foi pulado. A exceção da seção 7.3 continua de pé. Para fatos fechados, como capitais e bandeiras, não há o que decidir, e o baralho pronto economiza tempo.

Exemplo resolvido

Um parágrafo de história, transformado em cards

O parágrafo do livro: "A Lei Áurea, assinada pela princesa Isabel em 13 de maio de 1888, aboliu a escravidão no Brasil. Antes dela vieram a Lei Eusébio de Queirós, de 1850, que proibiu o tráfico de africanos escravizados, a Lei do Ventre Livre, de 1871, e a Lei dos Sexagenários, de 1885."

  1. Separar o que a prova pergunta. As quatro leis, a ordem delas e o que cada uma fez. A princesa e o dia exato são detalhes que podem cair, mas valem menos que a ordem.
  2. Um card por fato, em lacuna. "A Lei {{c1::Eusébio de Queirós}} ({{c2::1850}}) proibiu o tráfico de africanos escravizados." Duas lacunas, dois cards, e cada um tem uma resposta só.
  3. Um card para a ordem. "Qual veio primeiro: a Lei do Ventre Livre ou a dos Sexagenários?" A ordem é o que a questão de prova mais explora, e um card de lista com as quatro seria a sanguessuga da seção 7.4.
  4. Um card de "por quê". "Por que a Lei dos Sexagenários libertou poucas pessoas?" Resposta curta: poucos escravizados chegavam aos 60 anos, e a lei ainda exigia anos de trabalho como indenização. É o card que treina o raciocínio, e não só a data.
  5. O que não vira card. O contexto, a pressão inglesa, a campanha abolicionista: isso vai para o caderno, num resumo seu, e volta quando você responder uma questão aberta.

O resultado: cinco cards curtos, cada um respondido em poucos segundos, em vez de um card com o parágrafo no verso. E o trabalho de decidir quais são os cinco foi a primeira revisão do assunto.

Desafio10 minutos

Três cards ruins, reescritos

Abra o seu baralho e procure três cards que você costuma errar ou que demora para responder. Reescreva cada um seguindo as regras desta seção: um fato, uma resposta curta, as suas palavras. Se um card virar dois ou três, ótimo.

Passou se: os três cards novos têm uma resposta que cabe numa linha, e você apagou ou suspendeu os antigos.

Ver a resposta comentada

Os defeitos mais comuns nos cards que travam são três: o verso tem mais de uma coisa (vira dois cards), a pergunta aceita mais de uma resposta certa (falta contexto na frente) e o card é cópia do livro (falta a sua frase). Se nenhum dos três explica o erro, o problema costuma ser o assunto, e não o card: falta entender antes, e o card espera.

7.3 · Receitas por matériaModelos prontos: idiomas, exatas, ciências, direito, nomes e geografia

Modelos prontos de card para as matérias mais comuns. Comece copiando o da sua área e ajuste com o tempo.

  • Idiomas: frente = frase inteira com a palavra-alvo em destaque + áudio (TTS); verso = significado/imagem mental. Clozes para preposições e conjugações ("Ich warte {{c1::auf}} dich"). Cards de produção (PT→idioma) apenas para as frases das suas ilhas de fluência. Cards "só áudio" na frente treinam o ouvido.
  • Exatas: o Anki NÃO substitui resolver no papel. Ele guarda os gatilhos: fórmula em cloze (depois de deduzida 1x), "quando usar X vs Y?", condições de validade, e cada item do caderno de erros virando card ("qual a pegadinha clássica de juros compostos com aporte?").
  • Ciências/biologia/saúde: clozes em frases curtas ("A insulina é produzida pelas células {{c1::beta}} do {{c2::pâncreas}}"), oclusão de imagem para anatomia, ciclos e diagramas, e cards de "por quê" (interrogação elaborativa, seção 19.3).
  • Direito/concursos: lei seca em cloze, artigo por artigo, mas SÓ os mais cobrados pela sua banca; súmulas; "exceções de X" quebradas em cards individuais; tag por matéria e por origem (erro de simulado, aula).
  • Nomes e rostos: foto na frente → nome no verso (e o reverso), com a dica mnemônica escrita no card ("Sandra → sanduíche no cabelo"). Funciona para colegas novos, clientes, históricos ("rosto de Getúlio → era?").
  • Geografia (estados, capitais, países, bandeiras): oclusão de imagem no mapa (estado tampado → qual é?), capital↔estado nos dois sentidos, bandeira→país. Exceção à regra "faça seus próprios cards": para fatos fechados assim, baralhos prontos compartilhados funcionam bem. Baixe, pode usar.

7.4 · O ritual da revisãoAntes, durante e depois de cada sessão

O que fazer antes, durante e depois de cada sessão de revisão. São detalhes pequenos, e são eles que separam revisar de verdade de só apertar botão.

Antes (30 segundos): mesmo horário todo dia, ancorado num hábito existente (café da manhã, trajeto, fila). O widget na tela inicial faz o convite. Fones se for usar áudio. Uma respiração e a intenção: "vou puxar da memória, não reconhecer".

Durante:

  • Responda em voz alta (ou sussurrando) ANTES de virar o card. Resposta mental vaga vira "ah, era isso" e não treina nada.
  • Regra dos 8 segundos: não veio em ~8s? É erro. Vire e marque "De novo" sem culpa. O erro honesto é o que recalibra o algoritmo a seu favor.
  • Honestidade nos botões: "Bom" é o padrão; "Fácil" só quando foi instantâneo e óbvio; "De novo" sempre que hesitou de verdade. Mentir para o botão é mentir para o seu eu da véspera da prova.
  • Sanguessugas (leeches): card que você erra repetidas vezes não é burrice sua. É card mal feito. Não insista: reescreva (quebre em dois, acrescente mnemônico ou imagem) ou apague.

Depois (2 minutos): pergunte "quais 1–3 cards mais doeram hoje?" e melhore-os na hora (é a manutenção que separa baralhos vivos de cemitérios). Se puder, faça a sessão (ou uma mini-sessão extra) à noite, antes de dormir. O sono consolida o que entrou por último. E zere a fila todo dia: 5 minutos na fila do mercado contam; o ponto do AnkiDroid é exatamente esse.

E quando acumular 300 pendentes? Acontece com todo mundo. Protocolo de resgate: não tente zerar num dia (você vai responder no automático e odiar o app). Limite a 50–80 revisões/dia + zero cards novos até a fila normalizar; se o baralho tem cards ruins demais, é mais barato suspender os piores e refazê-los do que arrastá-los para sempre. Fila zerada com pressa é fila que volta; fila domada com teto diário é hábito recuperado.

Uma escolha do ritual tem um estudo bem direto: o tamanho da pilha. Em 2009, Nate Kornell, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, comparou estudar 20 cards de vocabulário como uma pilha só, em que cada card volta depois de passarem os outros 19, com quatro pilhas de cinco, em que cada card volta logo. A pilha grande espalha as repetições; as pequenas as amontoam. A pilha grande ensinou mais para 90% dos participantes. E, depois da primeira sessão, 72% achavam o contrário: as pilhas pequenas davam a sensação de saber, porque a resposta tinha acabado de passar.

No Anki, o algoritmo já faz o espaçamento entre os dias. O que fica nas suas mãos é o espaçamento dentro do dia: não repetir um card errado até ele "entrar" em sequência, e não revisar um assunto em blocos de cinco minutos com os mesmos poucos cards. Deixe o card errado voltar no fim da fila, que é o que os passos de reaprendizado do Anki fazem sozinhos.

7.5 · Como NÃO usar o AnkiOs 7 pecados capitais

Os sete jeitos mais comuns de usar o Anki errado. Se o seu baralho virou um fardo, procure a causa nesta lista.

  • Cardear tudo. Anki é para o que merece viver anos na sua cabeça, não para a apostila inteira. Na dúvida: "vou precisar disso daqui a 6 meses?" Não? Não vira card.
  • Cards-enciclopédia com parágrafos no verso: você vai "reconhecer" o texto, não saber a resposta. Quebrar sempre.
  • Baixar baralhos prontos para matéria conceitual. O aprendizado acontece ao CRIAR o card (decidir o que importa, com suas palavras). Prontos servem só para fatos fechados (bandeiras, capitais, vocabulário de frequência).
  • Usar o Anki como estudo único. Ele retém; não ensina nem treina raciocínio. Questões, problemas e prática direta continuam sendo o núcleo (Caps. 04 e 06). O Anki é o cofre, não a fábrica.
  • Pular dias. 3 dias parados = avalanche = ódio = desistência. No pior dia, revise só 10 cards: manter o hábito vivo vale mais que a sessão completa.
  • Maratonar cards novos (100 num domingo motivado) e afundar a semana seguinte. Constância pequena esmaga heroísmo esporádico.
  • Apagar por impulso. Em dúvida se o card ainda serve? Suspenda (some das revisões, mas fica guardado): apagar é para card ruim, suspender é para card adormecido.

7.6 · Melhoria contínuaO baralho que fica melhor todo mês

Um baralho envelhece: os cards ruins se acumulam e a retenção muda. Uma conferência por mês, com os números que o próprio Anki mostra, mantém tudo saudável.

  • Leia as estatísticas: retenção real saudável fica em ~85–90%. Acima de 95%, você está revisando demais (desperdício, relaxe a retenção desejada); abaixo de 80%, há cards ruins ou novos demais por dia meta.
  • Auditoria mensal de 15 min: liste as sanguessugas e reescreva as 10 piores; reformule (ou arquive) o baralho que você anda odiando. Método que você odeia é método que você abandona (Machová, seção 1.7).
  • Tags com propósito: marque a origem de cada card (erro-de-simulado, aula-X, livro-Y). Na véspera da prova, um baralho filtrado por tag revisa tudo daquele tema, ignorando o agendamento. O "modo véspera" oficial do Anki.
  • Backup é religião: sincronização diária + exportar o baralho (.apkg) 1x por mês para o Drive. Dois anos de memória cabem num arquivo.

7.7 · A ciência do FSRSPor que o algoritmo moderno do Anki é tão poderoso

Por anos o Anki usou o algoritmo SM-2 (de 1987, do SuperMemo). Desde 2023, o Anki traz o FSRS (Free Spaced Repetition Scheduler), um algoritmo de nova geração baseado em machine learning que agenda revisões com muito mais precisão. Entender como ele pensa te faz usá-lo muito melhor:

Os 3 pilares do FSRS

Dificuldade, Estabilidade, Recuperabilidade

Para cada card, o FSRS modela: a dificuldade (quão difícil ele é para você), a estabilidade (quanto tempo a memória dura antes de cair a 90%) e a recuperabilidade (a probabilidade de você lembrar agora). Ele agenda a revisão para o momento em que a recuperabilidade chega ao seu alvo (padrão 90%).

A grande vantagem

Menos revisões, mesma retenção

Por ser mais preciso, o FSRS costuma reduzir a carga diária de revisões em 20–30% estimativa: testes públicos do FSRS mantendo a mesma retenção. Ou aumentar a retenção com o mesmo número de cards. Ele aprende com o SEU histórico de acertos e erros.

Como ativar

Ligue e otimize

Em Ajustes → habilite o FSRS. Defina a retenção desejada (90% é ótimo para a maioria; 95%+ só para conteúdo crítico, pois explode o número de revisões). Rode o "otimizar" a cada poucas semanas: ele recalibra os parâmetros com base no seu desempenho.

O botão certo

Seja honesto nas avaliações

O FSRS depende dos seus cliques: De novo (errei), Difícil, Bom, Fácil. Use "Bom" como padrão quando acerta sem drama; "De novo" sempre que hesita ou erra. Mentir (clicar Fácil só para sumir com o card) sabota o algoritmo e a sua memória.

A retenção ideal não é 100%

Parece contraintuitivo, mas mirar 100% de retenção é um erro: o custo em revisões cresce exponencialmente perto dos 100%, e, pela teoria da dificuldade desejável (Bjork, Capítulo 04), um pouco de esquecimento na hora certa torna a memória mais forte quando você recupera com esforço. 90% é o ponto ótimo entre eficiência e retenção para quase todo mundo.

7.8 · Cards que separam os parecidosQuando misturar ajuda, quando atrapalha, e o card de comparação

O Anki já embaralha os cards, e isso parece resolver a questão da prática intercalada. Não resolve tudo. Embaralhar o baralho inteiro é diferente de pôr lado a lado as coisas que você confunde. A pesquisa sobre misturar e agrupar ficou bem mais precisa nos últimos anos, e ela muda o jeito de montar alguns cards.

Em 2008, Nate Kornell e Robert Bjork mostraram a universitários seis quadros de cada um de doze pintores. Cada pessoa viu os quadros de metade dos pintores em sequência e os da outra metade misturados. Depois, diante de quadros que nunca tinham visto, acertaram mais vezes o autor quando ele era um dos pintores estudados de forma misturada. O detalhe que deixou o estudo famoso veio no fim: a maioria achou que tinha aprendido melhor em sequência, mesmo depois de ver o próprio resultado dizendo o contrário. A sensação de fluência enganou.

Em 2019, Brunmair e Richter, da Universidade de Würzburg, na Alemanha, juntaram 59 estudos e mostraram que a resposta depende do material. Misturar ajudou na média (g = 0,42), bastante com pinturas e outras imagens (g = 0,67) e pouco com matemática (g = 0,34). Com listas de palavras, deu o inverso. Agrupar saiu na frente (g = 0,39 a favor do agrupado). O ganho de misturar cresceu quando as categorias eram parecidas entre si e quando os exemplos de cada uma variavam bastante. Paulo Carvalho e Robert Goldstone já tinham visto isso em 2014: misturar ajuda a separar o que se confunde, e agrupar ajuda a enxergar o que os membros de um grupo têm em comum.

Misture

Quando o erro é confundir

Termos que se parecem: mitose e meiose, crase e sem crase, por que e porque, os tempos verbais do inglês, os quadros de dois pintores da mesma época. Aqui falta a diferença. Ela só aparece com os dois lado a lado.

Evidência boa · meta-análise de 59 estudos (2019)

Agrupe

Quando o erro é não ver o padrão

Assunto novo, categorias bem diferentes entre si, lista de vocabulário. Estude cada grupo junto até enxergar o que os exemplos têm em comum. Quando o padrão estiver claro e os grupos começarem a se confundir, passe a misturar.

Evidência moderada · menos estudos; com palavras, o agrupado venceu

No Anki, o baralho embaralhado mistura assuntos distantes, como uma capital depois de uma fórmula, e isso quase não treina a diferença entre os parecidos. O que treina é o card de comparação: os dois termos na mesma frente, com uma pergunta que só um deles responde.

5 minutos por par confundido

O card de comparação

Quando: você errou um card e percebeu que respondeu com o conceito vizinho.

  1. Anote o par que se confundiu. O card sai desse erro real, e não de uma lista de parecidos inventada antes.
  2. Frente: "Mitose ou meiose: qual gera células com metade dos cromossomos?" Verso: a resposta e a diferença numa linha.
  3. Faça um segundo card com a pergunta do outro lado: "Qual gera duas células iguais à célula-mãe?"
  4. Se o par é visual, como duas plantas, dois quadros ou duas ondas no eletrocardiograma, use a oclusão de imagem da seção 7.10 com as duas imagens na mesma tela.

❌ Um card "Diferenças entre mitose e meiose" com seis itens no verso.

✅ Um card por diferença, cada um com uma pergunta de resposta única.

7.9 · Quando a prova tem dataQuanto espaçar, e o que o Anki não sabe

O Anki agenda cada card para quando você estiver perto de esquecê-lo. Ele não sabe que a sua prova é no dia 20. Para quem estuda para uma data, há uma pergunta que o algoritmo não responde: qual intervalo entre as revisões deixa a memória mais forte naquele dia?

O maior estudo sobre isso é de 2008. Nicholas Cepeda, Edward Vul, Doug Rohrer, John Wixted e Harold Pashler ensinaram fatos curiosos a mais de 1.300 pessoas pela internet, fizeram uma revisão depois de um intervalo que ia de minutos a mais de três meses e aplicaram a prova final depois de outro intervalo, de uma semana a um ano. O resultado tem dois lados. O primeiro: para cada distância até a prova, existe um intervalo de revisão que funciona melhor, e errar para menos custa mais que errar para mais. O segundo: esse intervalo cresce com a distância da prova, mas não na mesma proporção. Para uma prova a uma semana, o melhor intervalo ficou por volta de 20 a 40% da distância; para uma prova a um ano, por volta de 5 a 10%.

Prova em 1 semana1 a 2 diasprova Prova em 1 mêsuma semanaprova Prova em 1 ano3 a 5 semanasprova
A faixa dourada é o intervalo entre a primeira sessão e a revisão, em proporção à distância até a prova (estudo: Cepeda e colegas, 2008, com mais de 1.300 pessoas). Quanto mais longe a prova, maior o intervalo, mas menor a fração do caminho que ele ocupa.

Os autores tiraram disso uma conclusão dura sobre a escola: revisar na véspera, ou na semana, rende para a prova e quase nada para o ano seguinte. Quem quer lembrar daqui a um ano precisa de intervalos de semanas, e não de dias.

A prova é emA primeira revisão vai mais ou menosNo Anki
1 semana1 a 2 dias depoisO agendamento normal já cai nessa faixa
1 mêsUns 4 a 7 dias depoisNormal; na última semana, um baralho filtrado do assunto
6 meses a 1 anoSemanas depois, e de novo mais adianteRetenção desejada em 0,90 e confiança no algoritmo

Evidência boa · estudo grande, com quatro distâncias de prova; a linha do meio da tabela é interpolada entre elas

Para o Anki, a lição é que o algoritmo já faz quase tudo certo para o longo prazo, e o que muda perto da data é o que você faz por fora dele. Duas coisas, em ordem. Primeiro, não suba a retenção desejada do baralho inteiro na semana da prova: isso traz de volta todos os cards de uma vez, inclusive os de outras matérias. Segundo, use um baralho filtrado só com o assunto da prova para a última passada, sem mexer no agendamento dos outros. A seção 7.6 mostra a ideia, e a 7.17 traz as buscas prontas.

Desafio5 minutos

A sua próxima prova no calendário

Escolha a próxima prova que você tem e conte quantos dias faltam. Com a tabela, marque no calendário duas datas: a primeira revisão do assunto que você estudou esta semana, e a passada final com o baralho filtrado, dois ou três dias antes da prova.

Passou se: as duas datas estão no calendário, e a primeira não é amanhã nem a véspera.

Ver a resposta comentada

O erro mais comum é marcar a revisão para o dia seguinte, por ansiedade, e depois só na véspera. Os dados mostram que o intervalo curto demais desperdiça a revisão: você ainda lembra de tudo, não há esforço de recuperação, e a memória quase não ganha. Se a prova é daqui a um mês e você revisou amanhã, conte essa revisão como parte do estudo e marque a de verdade para daqui a uma semana.

🔒 a parte livre termina aqui

Faltam 13 seções deste capítulo

São mais 6.128 palavras, e é nelas que a ideia vira método: o passo a passo, os números, os erros que custam semanas e o que fazer quando trava.

  • Cloze, oclusão de imagem e cards de produção
  • Por que a repetição espaçada é quase mágica
  • Um plano concreto para não desistir
  • Monte seu baralho e exporte para importar no AnkiDroid
  • O que "estabilidade" quer dizer, em dias e em porcentagem
  • Os passos de aprendizado, e por que eles não substituem acertar três vezes
  • A noite entre duas sessões, e o que um estudo de 2016 mostrou
  • O baralho filtrado para a véspera, para os erros e para o que você nunca vê
  • e mais 5…

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